Crucificada na Parada LGBT, Viviany Beleboni é esfaqueada em São Paulo

G1

A atriz Viviany Beleboni, que é transexual e se crucificou durante a 19ª Parada Gay, afirmou, em vídeo postado em sua página no Facebook, que foi agredida na noite de sábado (8) perto da sua casa no Centro de São Paulo. Ela afirma que não registrou boletim de ocorrência porque não gostaria de ser “tratada como homem” pela polícia.

No vídeo, ela conta chorando que foi agredida por uma pessoa que “fala ser de Deus”. “Estou com meu olho inchado, meu rosto cortado, meu nariz está inchado”. Ao G1, Viviany disse que foi a primeira vez que foi agredida fisicamente depois da Parada Gay.

“Se era isso que vocês inimigos queriam, vocês conseguiram”. Segundo Viviany, as pessoas que a agrediram disseram que ela não era de “Deus”, que era “um demônio” e que “teria que pagar”.

“Sorte é que eu tenho 1,80 metros e que eu sou homem o suficiente e consegui apartar isso. Ele saiu correndo. Mas olha o que aconteceu comigo. Estou toda ensanguentada. Com cicatriz no meu corpo, no meu rosto”, disse aos prantos.
“Agora, as pessoas perguntam : ‘ah, vai fazer um bo.’. Vai na delegacia. Pra quê? Pra te tratarem que nem um homem lá. Pra te chamar que nem um homem lá, rir na sua cara e não dar em porra [sic] nenhuma? Eu não vou, não vou.”, completou.

Viviany diz que vai ficar trancada em sua casa.

“Porque é isso que esses religiosos e fanáticos querem. Que eu fique trancada dentro de casa. Estou cansada de ser ameaçada tanto por travesti, quanto por ET., como por qualquer tipo de pessoa. O meu ato foi de amor, pra alertar sobre pessoas que nem eu que estão sangrando”, finaliza o vídeo.

Processos

Viviany entrou na Justiça de São Paulo com processo contra o Facebook para obrigar a rede social a identificar usuários que, após o desfile, publicaram montagens de fotos dela em meio a imagens de sexo explicíto. Ela também abriu sete processos em que reivindica indenização por danos morais no valor total de R$ 800 mil.

Entre os alvos estão o senador Magno Malta (PR-ES), acusado por ela de ofender sua honra durante discurso, e o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), apontado por supostamente ter usado montagens de fotos do desfile com imagens de sexo explícito.

A advogada de Beleboni, Cristiane Leandro de Novais, diz que, por causa das imagens após a Parada, sua cliente tem sido reconhecida e sofrido agressões verbais ao frequentar lojas.

Em um dos processos, a transexual afirma que recebeu ameaças de morte por rede social e ligações, “já tendo sido inclusive agredida em frente à sua casa”. “Ela está com síndrome do pânico, não sai mais de casa por causa disso”, afirmou.

A advogada representa a organização não-governamental ABCDS, responsável pelo trio elétrico em que a transexual desfilou.

O senador Magno Malta afirmou, por meio de sua assessoria, que recebeu com naturalidade a informação sobre a ação judicial por entender que é direito de Beleboni entrar na Justiça, assim como também é direito dele, senador, falar.

O senador acrescentou que não retira nenhum ponto do que falou e que entrou com uma queixa-crime na Procuradoria Geral da República contra a transexual por crime de vilipêndio, escárnio e intolerância religiosa. O G1 entrou em contato com a assessoria do deputado Marco Feliciano, que ainda não se manifestou. O Facebook disse que não foi notificado.

Ações

Na ação de Beleboni contra Malta, o juiz Marcos Roberto de Souza Bernicchi indeferiu o pedido antecipação da decisão. “Claramente o objetivo da pessoa que se dispõe a se postar em uma cruz em uma manifestação popular é de chamar a atenção por meio [de] atitude controversa e chocante. E o objetivo da artista foi alcançado, já que o choque gerou a controvérsia. Não poderia a autora esperar reação outra que não fosse a intolerância de quem assumiu o risco de ofender”, disse o juiz, no despacho.

“As manifestações do réu, que constam da petição inicial, não foram exacerbadas contra a autora, já que não atingiram sua pessoa e sim o ato por ela praticado. O conteúdo das críticas manifestadas pelo réu tem cunho político e social, que são inerentes ao cargos que exerce, e, repita-se, em nenhum momento voltou-se contra a pessoa da autora. Indefiro, pois, a tutela requerida”, afirmou.

Manifestação

Beleboni, de 26 anos, é transexual, espírita e chocou parte dos participantes da 19ª Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais). Ela se prendeu à cruz, encenando o sofrimento de Jesus, para “representar a agressão e a dor que a comunidade LGBT tem passado”. “Nunca tive a intenção de atacar a igreja. A ideia era, mesmo, protestar contra a homofobia”, explicou.
Uma imagem da cruz foi capturada pelo fotógrafo João Castellano, da agência Reuters. A atriz disse que recebeu milhares de ameaças desde a publicação da foto. “Teve gente dizendo que ano que vem vão colocar fogo na parada”, contou.

Dias após a Parada Gay, deputados evangélicos e católicos fizeram uma manifestação no plenário da Câmara contra a parada gay, a “marcha das vadias” e a “marcha da maconha”. Com cartazes que traziam fotos do desfile, eles subiram à tribuna e pediram que atos públicos que “ferem a família” e a liberdade religiosa sejam transformados em “crime hediondo”. Eles criticaram, sobretudo, o fato de Beleboni ter se prendido na cruz, durante a parada gay, para representar o sofrimento dos homossexuais no Brasil.

Viviany explica que, nos últimos tempos, duas conhecidas foram agredidas. Uma delas teria sido morta com quatro tiros em Porto Alegre. “Eu vejo a Parada como um protesto, não como uma festa”, disse. “Usei as marcas de Jesus, que foi humilhado, agredido e morto. Justamente o que tem acontecido com muita gente no meio GLS, mas com isso ninguém se choca.”

Em cima da cruz, uma placa foi colocada com o texto: “Basta de homofobia”. “As pessoas não sabem ler? Coloquei a placa justamente para ficar claro que era um protesto. E mais: tudo bem encenar a paixão de cristo, mas quando é um travesti não pode, não é?”.

O deputado federal Marco Feliciano publicou um texto no Facebook no dia seguinte da Parada falando sobre a manifestação de Viviany: “Imagens que chocam, agridem e machucam. Isto pode? É liberdade de expressão, dizem eles. Debochar da fé na porta denuda igreja pode? Colocar Jesus num beijo gay pode? Enfiar um crucifixo no ânus pode? Despedaçar símbolos religiosos pode? Usar símbolos católicos como tapa sexo pode? Diizer que sou contra tudo isso NÃO PODE? Sou intolerante, né?”.